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segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O Sol Voltou a Brilhar

O sol voltou a brilhar. Não falo apenas literalmente, o que seria justo em virtude da bela semana ensolarada que tivemos neste início de novembro. Ocorre que um novo tempo começou na minha vida. Um tempo de esperanças e desejos renovados. Mas o que seria capaz de desencadear isto? O que aconteceu de tão diferente? Nada.

No último ano (um pouco mais de um ano, é verdade) venci 15 ciclos de quimioterapia. Quinze. Durante a semana passada, mais precisamente entre domingo e sexta-feira, estive internado pela 11ª vez no Hospital da PUCRS. Décima primeira. Algo de diferente? Não.

É fato que a quimioterapia já se tornou algo corriqueiro na minha vida. Ainda assim, não consigo me acostumar a essa rotina. Principalmente esse dia-a-dia de hospital, esse estado de dependência em relação às pessoas que mais estimo, essa falta de liberdade, essa espécie de coleira que carrego no peito que me liga aos mais diversos medicamentos e, por conseguinte e paradoxalmente, me resgatará a uma vida normal. É como estar preso sem ter cometido qualquer crime.

Tantas vezes já tive vontade de arrancar os fios e me libertar dessa legítima tortura, mas, para minha fortuna, a sensatez acaba falando mais alto e passo a conviver com a ansiedade e com o marasmo com naturalidade. Isso não significa que eles inexistam, aliás, bem no sentido inverso, são bem concretos e visíveis no meu íntimo. Permaneço abraçado a eles pelo tempo necessário para que meu corpo se livre da droga que o salva.

O que resta de uma semana como essa são os novos horizontes que consigo enxergar. A cada ciclo é assim. Novas janelas se abrem. Novos caminhos se formam. Uma nova consciência se impõe. É impossível se manter inalterado. Aos meus renovados olhos, o Sol volta a brilhar após uma semana inteira de eclipse.

Resumindo toda essa conversa, a semana que se passou foi, como sempre, cansativa e extensa (a sensação é que um dia é mais longo que uma semana). Praticamente não tive náuseas, urinei bastante e os rins estiveram em perfeito funcionamento, tive dores pelo corpo em um nível normal, a língua apresentou um pouco de inchaço, o paladar esteve alterado e o apetite não foi internado comigo, ao menos não o vi por todo o tempo em que estive no hospital. Ainda prefiro todos estes efeitos ao tédio e à ansiedade. Por incrível que pareça, mesmo o tratamento sendo considerado agressivo e até mesmo violento ao corpo humano, os efeitos psicológicos experimentados são potencialmente mais danosos que os efeitos físicos. Outros pacientes podem ter opiniões distintas, mas até o momento no meu caso, esta é a verdade.

Agora terei um mês de folga pela frente. O próximo ciclo será no início de dezembro e até lá realizarei uma nova bateria de exames de imagem (tomografias de tórax, abdômen e membro inferior esquerdo e cintilografia óssea) para aferir o estado de meu organismo em relação ao câncer. Vamos torcer para que continue livre de qualquer manifestação da doença. Além disso, serei novamente submetido a um ecocardiograma, pois o próximo ciclo será a última aplicação de doxorrubicina (a droga vermelha). Depois disso serão mais duas internações e estarei pronto a remontar as coisas em seus devidos lugares.

Frase do dia: "A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original." - Albert Einstein.


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Enrolado

Estou internado desde ontem no quarto 912 do Hospital São Lucas da PUCRS. No momento estou recebendo methotrexate e soro simultaneamente. A aplicação já está no final e estou me sentindo bem. Agora a Denise está tirando uma foto minha para botar aqui no blog, mas não conseguirei postá-la hoje.
Estou totalmente conectado, mas não é só na internet. Um equipo me conecta à bomba que administra o soro. Outro me liga à bomba que administra a quimioterapia. Cada bomba está ligada a uma tomada diferente através dos respectivos cabos de força. Além disso tudo, ainda tem o cabo da internet e o fio do mouse. É muito fio. Às vezes me surpreendo todo enrolado em volta do "poste" (suporte para a medicação), mas já me acostumei a desfazer os nós.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

14º Ciclo Vencido

Um a mais na conta. Ou a menos. Depende do ponto de vista. É mais uma batalha que foi vencida, é menos uma batalha a lutar. Um ano atrás eu não conseguiria imaginar estes números. Quatorze por um lado, quatro por outro. Da mesma forma, ainda não consigo imaginar os números ainda mais importantes. Dezoito por um lado, zero por outro. Este zero que pode ter tantos significados, zero câncer, zero tratamento, zero internações, zero ansiedade, zero sofrimento. Difícil imaginar. Difícil realizar. Uma emoção inenarrável quando acontecer.

O 14º ciclo foi muito tranquilo. Eu diria que foi o ciclo mais tranquilo até agora. Internei no dia 03/10/2010, isto mesmo, no dia das eleições, após cumprir com a minha obrigação de cidadão brasileiro (eu preferiria dizer exercer meu direito ao voto em uma sociedade democrática, mas acontece que o voto ainda é obrigatório, portanto não estou exercendo um direito e sim cumprindo as normas do Estado). Recebi 14g de methotrexate no dia seguinte, a menor dose até o momento e fui liberado na sexta-feira da mesma semana. Todos os índices acompanharam a curva correta. Os rins funcionaram bem e não senti muitos efeitos colaterais.

Enfrentei bem mais essa semana de internação. A reclusão não é muito agradável, mas já desenvolvi ferramentas para ajudar a combater a ansiedade e fazer o tempo passar um pouco mais rápido. Pontuei algumas ideias a seguir.


1- Evitar pensar no tempo
Pensar no tempo é algo que faz o tempo dilatar. O paciente normalmente fica ansioso pensando e calculando quanto tempo ainda falta para sair da reclusão. O interessante é que várias vezes me peguei contando o tempo em função de variáveis secundárias, por exemplo: "faltam três 'Jornais do Almoço' para ir embora" ou "não acredito que ainda tenho que encarar mais dois 'Vídeo Show' ainda".

2- Evitar a cama
Nas primeiras internações eu passava muito tempo na cama. Acordava e não tinha vontade de levantar. Acabava ficando praticamente o dia todo deitado. Isto é muito ruim. Temos que considerar que a partir de um certo tempo (normalmente a partir de terça-feira) já não existe mais sono, portanto mesmo que se fique deitado, não se consegue dormir. Além disso, o humor ficava horrível, a cabeça vazia pensando besteira, sentia menos vontade de comer e sentia mais dificuldades em ir aos pés. Enfim, a cama não ajuda o tempo a passar mais rápido na nossa cabeça, nos debilita fisicamente e psicologicamente. Portanto, cama só para dormir.

3- Evitar a TV nos horários que não agradam
A televisão do hospital é quatorze polegadas. A distância da cama, do sofá e da poltrona que existem no quarto até a televisão é grande. Os canais disponíveis são os da TV aberta. Não bastasse tudo isto, a imagem é ruim, cheia de sombras e toda tremida. Apesar disso, a televisão realmente ainda ajuda bastante a passar o tempo nas horas em que a programação é pelo menos razoável (poucas horas no dia). Então assisto apenas os programas que tenho vontade. Programo toda a minha rotina (almoçar, lanchar, jantar, ir ao banheiro e tomar banho) de acordo com a TV. Adiei meu horário de almoço em quase duas horas para acompanhar todos os noticiários e programas esportivos que passam entre as 12h e as 14h. Da mesma forma, tomo banho ou no horário dos filmes imbecis ou no horário da pior novela do momento. Tento segurar as idas ao banheiro durante os programas, reservando os horários de propaganda para realizar minhas necessidades fisiológicas. É claro que com a rotina "exaustiva" que tenho no hospital não é possível completar todo o espaço de programação ruim da TV. Esse tempo que sobra (é muito tempo!) reservo para o item a seguir.

4- Realizar atividades que der vontade
Levo sempre um livro e o notebook para o hospital, então dá para ocupar o tempo com estas atividades. Leio um pouco. Jogo um pouco. Navego na internet um pouco. Torno a ler. E assim segue. Outra atividade que no meu caso não se aplica devido à total ausência de dom é a música. Para quem sabe tocar algum instrumento, nada melhor do que aproveitar o tempo para tentar tirar aquela música nova ou então aquelas velhas e boas de sempre. Cheguei a comprar um violão. Tentei tocar, aprendi algumas coisas, mas falta o dom. Não tive a paciência necessária e acabei largando o instrumento. Agora ocupo meu tempo com as aptidões que não me faltam.

5- Olhar para a rua
As janelas do quarto são bem altas e enormes, mas vou várias vezes até elas para contemplar a rua. Consigo ver algumas árvores, alguns morros, o estacionamento do hospital e a avenida Ipiranga, sempre movimentada.

6- Tomar banho com bastante calma
Sei que não é ecológico, mas ficar um tempo a mais no banho faz uma diferença enorme no humor. Deixar a água quente cair um pouco sobre o corpo por vezes dolorido, ajuda muito a desestressar e relaxar. Também não posso exagerar, pois a bateria da bomba de administração de soro acaba rápido, mas vale a pena gastar uns 20 minutos embaixo da água quente.

7- Conversar com quem estiver perto
No meu caso, minha mãe, meu pai e a Denise me acompanham sempre. Sempre tem alguém comigo. Às vezes o assunto acaba, mas aí a gente repete, fala de novo das mesmas coisas, lembra de alguma coisa do passado. Assim o tempo acaba andando mais rápido. Quando o pessoal da enfermagem entra no quarto também vale a pena dar uma palavrinha.

8- Receber visitas
Acho que esta é a maneira mais eficaz de fazer o tempo passar. Receber visitas dos amigos ou familiares faz o tempo voar. Na última internação recebi várias visitas, todas me ajudaram muito a conter a ansiedade.



Hoje foi dia de consulta. O Dr. Júlio prescreveu alguns exames de sangue para verificar como estão os índices. Agora já é hora de ir dormir, porque amanhã (tecnicamente hoje, mas como eu ainda não dormi, para mim é amanhã) pela manhã eu tenho que fazer um deles.




Assistindo Resident Evil 4 - 3D

domingo, 8 de agosto de 2010

12º Ciclo Vencido

Mais um! O 12º já é passado e hoje vim atualizar o blog quanto a este ciclo agitado que se foi. A internação ocorreu no domingo passado (01/08/2010). Fiquei no quarto 917 do Hospital São Lucas da PUCRS. Recebi 15,5 gramas de methotrexate na segunda-feira, dia 02/08/2010 e já no primeiro exame de sangue tivemos uma surpresa: a dosagem da droga, que deveria ser levemente superior a 1.000 μmol/L, estava acima de 2.000 μmol/. A primeira impressão era de que meus rins não estavam filtrando como deveriam e pudemos confirmar isto nos dias que seguiram através dos níveis de creatinina (bati meu recorde - 1,45 mg/dL). A verdade é que os meus pobres rins já estão demonstrando cansaço diante do bombardeio de drogas a que estão submetidos há quase um ano. Está certo que eles nunca foram muito santos e sempre demoraram um pouco mais que o normal para expelir a droga, entretanto nos últimos dois ciclos ficou evidente que estão, de certa forma, abalados. Difícil é dizer se isto é temporário ou não. Pelo andar da carruagem deverei intensificar o acompanhamento nefrológico para que consiga cumprir todo os dezoito ciclos do protocolo.

Em decorrência desses percalços, só recebi alta ontem pela tarde. Apesar de ter ficado um dia a mais no hospital, não fiquei aborrecido. Me surpreendi com o meu próprio autocontrole... Consegui entender que não interessava o tempo necessário para receber alta, mas sim que quando eu fosse liberado eu estivesse realmente apto. Senti a mesma sensação de conformismo de quando rodei em uma cadeira na faculdade porque realmente não dominava o conteúdo e, portanto, não tinha condições de ser aprovado.

Quanto aos níveis de desidrogenase láctica, que me deixaram angustiados no fim do mês passado, o último exame de sangue que fiz em 28/07/2010 desfez a minha paranóia. O resultado foi 365 U/L, o índice mais baixo desde que comecei o tratamento. Imagino que a anormalidade apresentada tenha sido resquício do 11º ciclo de quimioterapia. Toda a tensão já está desfeita. A fosfatase alcalina também continua baixa, o que é motivo de alívio.

Nos próximos dias realizarei mais exames de sangue para acompanhar meus índices imunológicos e uma nova bateria de exames de imagem (tomografia computadorizada e cintilografia óssea). Por enquanto está mantida a dieta de "cozidos e fervidos", que nem é tão ruim assim para quem adora um bom arroz com feijão. Nos últimos dias, tenho preferido as sopas para conseguir ingerir mais líquidos. Quanto aos exames de sangue, vou abandonar um pouco o braço esquerdo por uns tempos, pois na última semana foram nove coletas no coitado. Já não tem onde furar. Agora é a vez do braço direito sofrer um pouquinho.

Para outros pacientes da oncologia:
Assisti uma breve entrevista com Isabel Allende - filha do ex-presidente chileno Salvador Allende e escritora consagrada com A Casa dos Espíritos - e ouvi uma frase que me tocou bastante. Senti respaldada a ideia de que meu blog tem um sentido muito importante para mim. Em outras palavras, ela disse que quando escreve consegue dar dimensão à dor. É realmente o que sinto. Quando nos colocamos na tarefa de redigir nossos sentimentos, acabamos por, de alguma forma, dimensioná-los. Isto talvez até não seja tão bom para sentimentos agradáveis, mas para a dor pode ser interessante, pois conseguimos reconstruir a nossa visão dos fatos a partir de novas perspectivas. Somos forçados a imaginar sofrimentos semelhantes ou então situações que representem - de forma caricata ou não - essa nossa dor. Decidimos compará-la com o crepúsculo de um dia cinzento ou com uma tempestade em alto mar. Com o frio cortante de um indigente ou com a agonia de um torturado. Acredito que escrever, se feito com prazer, pode ser uma boa terapia, uma maneira excelente de manter mente sã em um corpo que também queremos são.

Por fim, gostaria de desejar a todos os pais que acompanham o blog um feliz dia dos pais. Obviamente, desejo isto em especial ao meu pai, que considero o melhor pai do mundo. Nunca conseguirei agradecer toda a dedicação e amor que ele tem por mim. É meu exemplo de princípios e valores. A base forte de meu caráter e da minha personalidade. É o que eu quero ser quando crescer, é o meu maior ídolo. Pai, obrigado por tudo!




Só para esclarecer: eu tenho a impressão de que ele é colorado mesmo.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

11º Ciclo Vencido

Voltei. Peço desculpas por não avisar, mas tirei férias do blog neste último mês. Ocorre que foram as últimas semanas antes que a Denise assumisse o novo emprego, portanto decidimos aproveitá-las bem e praticamente não sobrou tempo para escrever. Agora tenho bastante novidades e inspiração.

O 11º ciclo já foi vencido. Fui internado no dia 04/07/2010 no Hospital da PUCRS e recebi 14,5 gramas de methotrexate no dia seguinte. Apesar de ter sido a menor quantidade em um único ciclo até o momento, para nossa surpresa foi a pior taxa de redução da dosagem da droga no sangue, ou seja, o meu organismo demorou mais para filtrar e expelir a medicação através da urina. Para entender melhor: para cada 24 horas que se passam, existem determinados valores de referência para a concentração de methotrexate no sangue. A seguir a tabela.




Pela primeira vez, não consegui atingir os valores de referência nas horas 24 e 48. Em decorrência disso tive que permanecer internado até a noite de sexta-feira quando atingi um nível satisfatório e seguro para deixar o hospital e retornar para casa. Agora já estou até com a dieta liberada!

Como de costume, na semana seguinte fiz alguns exames de sangue para verificar uma série de indicadores. Infelizmente a LDH (desidrogenase láctica) apresentou um valor elevado (675 U/L) em relação ao valor de referência (618 U/L). Como já disse anteriormente, a desidrogenase láctica é considerada um marcador tumoral inespecífico, porém pode ser indicativo de vários outros problemas como anemia megaloblástica, infarto do miocárdio, infarto pulmonar, mononucleose infecciosa, distrofia muscular progressiva, algumas doenças renais, lesões internas em geral. Confesso que fiquei muito chateado e com medo de estar desenvolvendo metástases ao ver o resultado deste exame de sangue, porém conversei com o Dr. Júlio e já consegui controlar a ansiedade. É difícil imaginar a hipótese de ter o tratamento aumentado ou modificado, me causa uma insegurança enorme. Fiquei meio sem saber o que pensar por alguns dias. Semana que vem realizarei outro exame para verificar se o valor continua elevado. De qualquer forma, em breve será hora de novamente fazer os exames de imagem e aí será possível esclarecer qualquer dúvida.

Por hoje são estas as novidades. Sei que o pessoal está aguardando a postagem que prometi sobre o chá verde e prometo que ela não ultrapassará a semana que vem. Obrigado a todos pelo carinho e pela atenção.

domingo, 9 de maio de 2010

Fôlego Renovado

Terminado o 9º ciclo de quimioterapia já é hora de voltar a escrever. Sei que estou em dívida com todos que me acompanham aqui pelo blog e nesta postagem pretendo esclarecer os motivos de minha ausência enquanto narrador desta novela.

Todos sabem ou imaginam que atravessar esse tratamento, que apelidei de vale sombrio, não deve ser fácil. Realmente, não imaginava facilidades quando ele começou. Previ todo tipo de dificuldade, principalmente física, imaginava estar imune à corrosão psicológica que era apenas uma possibilidade para um ser tão racional, realista, sensato e auto-suficiente como eu imaginava ser. Mas até mesmo uma rocha pode ceder. Com pessoas isto seja, talvez, mais líquido e certo do que alguns efeitos colaterais da quimioterapia. Ainda em meio ao 8º ciclo me deparei com uma situação que nunca imaginaria: estava eu no hall da depressão, já estava atravessando a porta, prestes a me entregar em um vazio que talvez me tragasse para as profundezas do vale sombrio e lá me aprisionasse, na escuridão, no frio, aguardando o pior.

Acho que na nossa vida, muito pouca coisa acontece por acaso. Pessoas cruzam nosso caminho em momentos bons e não imaginamos que um dia elas podem nos tirar do abismo. "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.", profetizou Antoine de Saint Exupéry em sua fábula O Pequeno Príncipe. Ele estava certo. E como estava! Tive motivação suficiente para voltar, abandonar o escuro, fechar a porta, me sentar ao sol, à luz da minha motivação. Aprendi que, assim como a minha doença, meu tratamento é coletivo, não sou afetado sozinho, todos ao meu redor podem sentir, podem contribuir, podem me ajudar e é por estas pessoas, minha família e meus amigos, que preciso seguir em frente, vencer, dar a volta por cima neste embaraço da vida. Não é feio precisar de ajuda, mas sempre achei que isto não fosse para mim. Tolice a minha acreditar que a vida não me faria mudar de ideia. Hoje sei que sem as pessoas que me importam não sou nada, não tenho razão de viver, não irei a lugar algum. Eu nem mesmo precisaria estar escrevendo estas palavras. Muitas vezes penso que morrer pode ser mais fácil do que viver. A questão é que ainda existem motivos para viver. Para morrer não.

Os últimos dias foram dias de reflexão na minha vida. Dias de reciclagem de conceitos, de pesos e importâncias. Não me senti disposto a escrever em meio a este turbilhão emocional. Para ser sincero, estava sem a menor inspiração, não saberia por onde começar, não teria nada digno a dizer. Procurei esquecer um pouco da doença e do tratamento e me dedicar um pouco mais a aproveitar meus dias com pensamentos mais leves. Acredito que já esteja recuperado, me sinto confortável em escrever e já não estou em pânico quanto às incertezas do futuro.

Quanto ao 9º ciclo, foi tranquilo, como todas as outras aplicações de methotrexate. Fui liberado na sexta-feira de tarde para retornar para casa. Sofri apenas os efeitos colaterais de sempre, boca inchada, dores no corpo e um pouco de lentidão no raciocínio. Tudo bem leve. Não tenho do que me queixar.

A novidade é uma avaliação nefrológica que iniciei. Tanto a cisplatina quanto o methotrexate são drogas consideradas nefrotóxicas. A cisplatina tem um potencial de toxicidade bem significativo, causando algumas lesões irreversíveis que se substanciam em perda de função renal. A última DCE (depuração da creatinina endógena, exame de sangue e de urina indicativo da função renal) revelou um pequeno déficit. Os meus níveis de creatinina no sangue também estão num patamar onde a perda de função já é provável. A creatinina é produzida através da atividade muscular e esta produção é praticamente constante no organismo. Ela aumenta sua concentração no sangue a medida que reduz a taxa de filtração renal. Fiz um exame de urina e nos próximos dias farei uma ecografia para avaliar melhor. Já recebi três doses de cisplatina e só tenho mais uma a receber. Conforme avaliação preliminar do nefrologista, é bem provável que esta questão não interfira no tratamento e eu possa fazer o 10º ciclo normalmente.

Ao realizar o balanço de costume após o término de mais um ciclo, agora posso ver que já venci metade do tratamento quimioterápico. Nove ciclos se foram, nove ainda estão por vir. Ainda me sinto cheio de disposição para enfrentar o tratamento. Estas últimas semanas serviram para retomar o fôlego. Agora posso seguir o caminho que comecei a trilhar oito meses atrás rumo à vitória. Estou pronto, preparado, firme e forte. Não é assim tão fácil para me derrubar do cavalo!


P.S. 1: quero deixar aqui um agradecimento especial ao Cristiano, que trabalha na psicologia da Clinionco. Ele foi decisivo nesta retomada, me encorajou a refletir e a buscar o melhor para o enfrentamento da situação. Estive munido das melhores armas para o combate. Muito de minha paz espiritual devo a ele. Obrigado!

P.S. 2: hoje é Dia das Mães e parabenizo a todas as mães que estão lendo esta postagem. Em especial desejo um feliz Dia das Mães a minha mãe, que tem sido incrível comigo nestes momentos que mais preciso dela, tem demonstrado uma força enorme e uma dedicação incondicional. Não sei o que seria de mim sem ti. Mãe, eu te amo!

quarta-feira, 5 de maio de 2010

9º Ciclo

O 9º ciclo de quimioterapia começou no domingo passado, dia 02 de maio de 2010, no quarto 918 do Hospital São Lucas da PUCRS. Até aqui tudo tem ocorrido dentro do planejado. Na segunda-feira recebi o methotrexate e o exame de sangue revelou uma boa dosagem da droga. Se tudo correr conforme previsto estarei livre para voltar para casa na sexta-feira de tarde. Até lá o desafio é superar o tédio.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Fim do 8º Ciclo

Já estou em casa. Fui liberado do hospital por volta das 16h30min e voltei imediatamente para casa. Como é bom estar em casa, não tem preço. Mesmo que seja para não fazer nada, em casa é bem melhor. O momento do retorno é sempre emocionante para mim, sinto a confiança retomando seu espaço e a certeza de um futuro melhor. Sempre faço um balanço para avaliar o tratamento. Já terminei o 8º ciclo. Já passei pela cirurgia e pelos momentos mais delicados da recuperação. Tanta coisa já aconteceu nestes últimos 7 meses e meio, que só posso estar feliz pelos resultados e confiante em tempos ainda melhores.

Agora tenho duas semanas de folga pela frente. Vou aproveitá-las da melhor maneira que puder, pois são elas que me deixam apto a enfrentar os ciclos seguintes de quimioterapia. Semana que vem devo fazer os exames de sangue como é normal após as internações e provavelmente ainda estarei com a dieta restrita. De qualquer forma, na outra semana já estarei pronto para fazer tudo o que der vontade, como comer um "xis salada" com bastante ovo e maionese hehehe. Oito já foram vencidos! Só faltam mais dez!

terça-feira, 13 de abril de 2010

8º Ciclo

Fui internado no último domingo no quarto 966 Hospital São Lucas da PUCRS para realizar o 8º ciclo de quimioterpia. Ontem recebi 16g de methotrexate e demais medicamentos usuais. No momento me sinto bem, estou recebendo soro e navegando um pouco pela internet. Agora resta aguardar uma boa recuperação para voltar para casa o mais rápido possível.

Já faz um tempo que não escrevo aqui no blog. Neste meio tempo ocorreu o nascimento de meus sobrinhos gêmeos Henrique e Gabriel. Para quem ainda não viu, seguem as fotografias. Apesar de parecerem idênticos, têm algumas diferenças, mas descubram por vocês mesmos.

Gabriel



Henrique

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Fim do 6º Ciclo

E lá se foi mais um ciclo de quimioterpia. Recebi alta hoje de tarde e já estou em casa. Este ciclo foi bem tranquilo, praticamente não senti os efeitos comuns, apenas falta de apetite e um pouco de inchaço e sensibilidade na boca.

Toda vez que retorno para casa tenho a sensação de estar retornando ao mundo. Parece que enquanto estou no hospital estou atravessando um caminho sombrio e desconhecido, que me causa as mais estranhas sensações: medo, angústia, incerteza, raiva, enfim, muitos pensamentos ruins retornam nestas horas. São recaídas inevitáveis diante de um momento de fragilidade física e emocional.

Agora estou eu em casa, retomando o fôlego e aproveitando um pouquinho mais da vida enquanto não chega o 7º ciclo. Semana que vem terei consulta ao oncologista, exames de sangue e será tempo de refazer os exames de rotina para atestar a inexistência de metástases. Em meio a tudo isto a vida segue seu curso natural, todos envelhecendo a cada dia. Não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

6º Ciclo: 2º dia

A quimioterapia foi administrada ontem entre as 14h10min e 18h30min. Felizmente até o momento estou bem, sem náuseas e com pouco inchaço na língua. Desta vez a aplicação foi de 17g de methotrexate, 3g a menos em relação a primeira aplicação e os resultados continuam ótimos, portanto no próximo ciclo ainda poderemos reduzir a quantidade aplicada. A batalha continua!