terça-feira, 9 de novembro de 2010

Chá Verde

É uma das discussões do momento na oncologia. Afinal, até que ponto a alimentação tem in- fluência no desenvol- vimento de tumores no nosso organismo? Alguns dizem que ainda não existem evidências cla- ras a respeito dos bene- fícios de uma alimen- tação saudável no que diz respeito à prevenção do câncer. Outros a- firmam e envidam esforços em pesquisas muitas vezes carentes de recursos na tentativa de estabelecer correlações positivas.

Fato é que existem muitos interesses (ou desinteresses) por trás de tudo isso. A bilionária indústria farmacêutica jamais investiria em pesquisas para analisar os efeitos do brócolis, do chá verde ou do cúrcuma na prevenção do câncer. Isto não significa que a culpa é das empresas que detêm as maiores fatias do mercado farmacêutico. É plenamente concebível que não invistam nessa área por não ser interessante economicamente. Estamos falando de empresas. Estamos falando de capitalismo (isto não é uma crítica, apenas uma constatação de como funciona o nosso mundo). Não fossem essas empresas e não teríamos tratamentos oncológicos tão avançados. Da mesma forma, ninguém desenvolve remédios apenas porque é "bonzinho". Existe a contrapartida financeira sempre e no caso da oncologia é uma bela contrapartida, mas isto é assunto para uma outra postagem.

Mas então quem deve investir em pesquisas desse tipo? Na minha opinião é o Estado. Trata-se de saúde pública, trata-se de bem-estar social, trata-se talvez de evitar uma epidemia ainda mais assustadora. Os números não mentem. Nas últimas décadas, principalmente no mundo Ocidental, o aumento do número de pacientes acometidos pelas variações da doença é desproporcional ao aumento da população. Os dados epidemiológicos dão conta desta dura realidade. Algo está errado. Algo tem que mudar.

A mim parece claro que existe algo errado no nosso modo de vida, mas isto é apenas uma opinião de alguém pouco experimentado no assunto. Apesar disso, me calcei de alguns estudos existentes na área, que apresentam indícios do que discorrerei a seguir.


O Chá Verde

O chá verde é uma bebida milenar que é fabricada a partir dos brotos novos de Camillia sinensis. Não se sabe exatamente sua origem, mais o mais provável é que tenha surgido na região da Índia e tenha chegado a China através da rota da seda.

A cultura ocidental incorporou o chá aos seus hábitos por volta de 1600, quando comerciantes portugueses começaram a importar a especiaria do mundo oriental. Nesta época, o chá era predominantemente verde, pois o chá preto ainda não havia se difundido na própria China. Ocorre que na sequência, devido à capacidade do chá preto de manter inalteradas suas propriedades, aroma e sabor por maior período de tempo, o chá verde passou a ser preterido e atualmente o chá mais consumido no Ocidente é preto.

A sua capacidade anticancerígena reside na abundância de polifenóis, especificamente flavonóis ou catequinas, que são moléculas complexas que agem no organismo humano inibindo a angiogênese, através do bloqueio do receptor de VEGF (ver o segundo vídeo da postagem Angiogênese). Até o momento, a Epigalocatequina-3-galato, mais conhecida como EGCG, é a molécula de origem nutricional mais poderosa nesse bloqueio.



A diferença entre o chá verde e o chá preto está no processo de fabricação. A fabricação do chá verde é capaz de manter a EGCG, enquanto que a do chá preto converte os polifenóis em pigmentos negros. Além disso, o chá verde tem até 4 vezes menos cafeína em sua composição.

In vitro, a EGCG foi capaz de inibir o crescimento de células de leucemias humanas, leucemias eritrocitárias, cânceres de rim, pele, mama, boca e próstata. Estudos em animais foram positivos para exposição a agentes cancerígenos causadores de cânceres de pele, mama, pulmão, esôfago, estômago e cólon. Um estudo publicado no Journal of Cancer Research & Clinical Oncology em 2004 sugere que a combinação do chá verde com a radioterapia em crianças com meduloblastoma traz mais efetividade ao tratamento. Outro estudo realizado em Harvard utilizando camundongos avaliou a combinação do chá verde com a soja e também apresentou resultados positivos na inibição do câncer de mama estrógeno positivo.

O ideal é que o uso do chá verde ocorra três vezes ao dia com infusões de 8 a 10 minutos (menos que 5 minutos só consegue extrair 20% das catequinas). Existem diferentes tipos de chá verde e a proporção de EGCG varia. Sencha-uchiyama, Gyokuro e Sencha são os que apresentam maior quantidade da molécula. Os três são japoneses. Deve-se consumir a bebida logo após o seu preparo, evitando as garrafas térmicas.

Faço uso do chá verde regularmente (ainda não atingi a frequência correta). O chá é muito gostoso e é perfeitamente possível dar conta das três xícaras por dia. Além disso, o hábito acaba por ajudar a criar outro hábito muito incentivado pelos nutricionistas, que é fazer cinco ou seis refeições por dia.

Para quem se interessar, seguem as fontes:
Anticancer: Prevenir e vencer usando as nossas defesas naturais - David Servan-Schreiber
Os alimentos contra o câncer - Richard Béliveau Ph.D., Denis Gingras Ph.D.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O Sol Voltou a Brilhar

O sol voltou a brilhar. Não falo apenas literalmente, o que seria justo em virtude da bela semana ensolarada que tivemos neste início de novembro. Ocorre que um novo tempo começou na minha vida. Um tempo de esperanças e desejos renovados. Mas o que seria capaz de desencadear isto? O que aconteceu de tão diferente? Nada.

No último ano (um pouco mais de um ano, é verdade) venci 15 ciclos de quimioterapia. Quinze. Durante a semana passada, mais precisamente entre domingo e sexta-feira, estive internado pela 11ª vez no Hospital da PUCRS. Décima primeira. Algo de diferente? Não.

É fato que a quimioterapia já se tornou algo corriqueiro na minha vida. Ainda assim, não consigo me acostumar a essa rotina. Principalmente esse dia-a-dia de hospital, esse estado de dependência em relação às pessoas que mais estimo, essa falta de liberdade, essa espécie de coleira que carrego no peito que me liga aos mais diversos medicamentos e, por conseguinte e paradoxalmente, me resgatará a uma vida normal. É como estar preso sem ter cometido qualquer crime.

Tantas vezes já tive vontade de arrancar os fios e me libertar dessa legítima tortura, mas, para minha fortuna, a sensatez acaba falando mais alto e passo a conviver com a ansiedade e com o marasmo com naturalidade. Isso não significa que eles inexistam, aliás, bem no sentido inverso, são bem concretos e visíveis no meu íntimo. Permaneço abraçado a eles pelo tempo necessário para que meu corpo se livre da droga que o salva.

O que resta de uma semana como essa são os novos horizontes que consigo enxergar. A cada ciclo é assim. Novas janelas se abrem. Novos caminhos se formam. Uma nova consciência se impõe. É impossível se manter inalterado. Aos meus renovados olhos, o Sol volta a brilhar após uma semana inteira de eclipse.

Resumindo toda essa conversa, a semana que se passou foi, como sempre, cansativa e extensa (a sensação é que um dia é mais longo que uma semana). Praticamente não tive náuseas, urinei bastante e os rins estiveram em perfeito funcionamento, tive dores pelo corpo em um nível normal, a língua apresentou um pouco de inchaço, o paladar esteve alterado e o apetite não foi internado comigo, ao menos não o vi por todo o tempo em que estive no hospital. Ainda prefiro todos estes efeitos ao tédio e à ansiedade. Por incrível que pareça, mesmo o tratamento sendo considerado agressivo e até mesmo violento ao corpo humano, os efeitos psicológicos experimentados são potencialmente mais danosos que os efeitos físicos. Outros pacientes podem ter opiniões distintas, mas até o momento no meu caso, esta é a verdade.

Agora terei um mês de folga pela frente. O próximo ciclo será no início de dezembro e até lá realizarei uma nova bateria de exames de imagem (tomografias de tórax, abdômen e membro inferior esquerdo e cintilografia óssea) para aferir o estado de meu organismo em relação ao câncer. Vamos torcer para que continue livre de qualquer manifestação da doença. Além disso, serei novamente submetido a um ecocardiograma, pois o próximo ciclo será a última aplicação de doxorrubicina (a droga vermelha). Depois disso serão mais duas internações e estarei pronto a remontar as coisas em seus devidos lugares.

Frase do dia: "A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original." - Albert Einstein.


segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Enrolado

Estou internado desde ontem no quarto 912 do Hospital São Lucas da PUCRS. No momento estou recebendo methotrexate e soro simultaneamente. A aplicação já está no final e estou me sentindo bem. Agora a Denise está tirando uma foto minha para botar aqui no blog, mas não conseguirei postá-la hoje.
Estou totalmente conectado, mas não é só na internet. Um equipo me conecta à bomba que administra o soro. Outro me liga à bomba que administra a quimioterapia. Cada bomba está ligada a uma tomada diferente através dos respectivos cabos de força. Além disso tudo, ainda tem o cabo da internet e o fio do mouse. É muito fio. Às vezes me surpreendo todo enrolado em volta do "poste" (suporte para a medicação), mas já me acostumei a desfazer os nós.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Angiogênese

Em complemento à postagem anterior, encontrei os vídeos a seguir que explicam resumidamente a formação de um tumor e de uma metástase.






quinta-feira, 21 de outubro de 2010

A Formação de um Tumor

Comecei a escrever a postagem sobre o chá verde, porém esbarrei em uma questão fundamental: para entender o eventual benefício é necessário primeiramente entender o mecanismo através do qual se formam e se desenvolvem os tumores malignos no nosso organismo. Para entender esse mecanismo, é importante conhecer como ocorrem o processo inflamatório e a angiogênese. Segue resumo.



A Inflamação

A inflamação é um fenômeno fisiológico que consiste em uma reação do organismo a uma agressão (lesão celular ou tecidual). Trata-se de um mecanismo de defesa do corpo, um fenômeno imunológico.

Resumidamente o processo inflamatório ocorre da seguinte forma:
Inicialmente as plaquetas se concentram no local afetado liberando substâncias químicas (PDGF - Platelet-derived growth factor ou "fator de crescimento de derivação plaquetária") que atraem os glóbulos brancos. Estes, por sua vez, irão liberar outros mediadores químicos (citocinas, quimiocinas, prostaglandinas, leucotrienos e tromboxanos) que irão conduzir todo o processo de reparação celular.

Primeiramente, elas irão dilatar os vasos sanguíneos da proximidade para viabilizar a chegada de células adicionais (como se tivessem aguardando reforços para o combate). Em seguida ativam a coagulação sanguínea em torno das plaquetas e tornam os tecidos adjacentes permeáveis, facilitando o acesso das células imunológicas. Por fim, promovem a multiplicação das células do tecido afetado de modo a suprir o espaço deixado e formam novos vasos sanguíneos para o transporte de oxigênio e nutrientes ao local reconstruído.


Em harmonia, os processos inflamatórios são essenciais ao organismo. Uma característica importante é que são autolimitados, ou seja, tão logo cesse a necessidade de reparações, cessa também o crescimento de novos tecidos.




A Angiogênese

A angiogênese é o fenômeno pelo qual são criados novos vasos sanguíneos a partir de outros já existentes. O surgimento de novos vasos ou capilares acontece em circunstâncias bem específicas: durante o crescimento, após as menstruações e na reparação de lesões.




A Formação de um Tumor

Por motivos diversos (exposição a agentes carcinogênicos, predisposição genética...), uma célula sofre mutação. O resultado é uma célula desorganizada, geneticamente alterada e diferente das demais células que compõem o tecido na qual está localizada.

O sistema imunológico é chamado a intervir, porém de maneira perversa as células cancerosas se utilizam do processo inflamatório gerado naturalmente em torno de si para crescer. Elas passam a produzir mediadores químicos (as mesmas citocinas, quimiocinas, prostaglandinas, leucotrienos e tromboxanos) que potencializam a sua própria multiplicação e tornam permeáveis os tecidos adjacentes, facilitando a sua proliferação e penetração no fluxo sanguíneo, o que permitirá o surgimento de metástases.


Em um processo inflamatório normal os mediadores químicos param de ser produzidos tão logo os tecidos estejam reparados, porém nesse caso a produção não é interrompida. Essas substâncias se tornam abundantes no local, ocorrendo apoptose (suicídio celular) nos tecidos vizinhos, de forma a impedir a proliferação anárquica dos tecidos. O excesso de fatores inflamatórios desorienta os glóbulos brancos. Sendo assim, o tumor não é mais atacado e passa a aumentar de forma desorientada.


Como ocorre em qualquer célula, para sobreviver, crescer e se multiplicar as células cancerosas precisam de nutrientes e oxigênio. O abastecimento é feito através de novos capilares formados pelo tumor (angiogênese). A formação destes vasos é estimulada pelo tumor ao liberar "angiogenina", substância que atrai os vasos existentes na sua direção através de novos caminhos. Desta forma, o tumor se torna sustentável e passa a crescer e se disseminar pelo organismo.


Em síntese, para ocorrer o surgimento de um tumor as células cancerosas se utilizam do sistema imunológico, promovendo o processo inflamatório e desorientando as células de defesa. Além disso, através da angiogênese um tumor se torna capaz de receber oxigênio e nutrientes que resultarão na sua sobrevivência e permitirão seu desenvolvimento e proliferação no organismo.



O objetivo desta postagem era apenas introduzir o assunto para os que acompanham o blog, de modo a facilitar o entendimento de postagens futuras. Infelizmente não encontrei figuras esquemáticas que representem os processos descritos e facilitem a compreensão dos mecanismos, mas caso encontre, atualizarei a postagem. A fonte é o livro "Anticâncer - Prevenir e vencer usando nossas defesas naturais" de David Servan Schreiber. No livro outras diversas fontes são citadas. Se alguém quiser saber mais, recomendo a leitura.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

14º Ciclo Vencido

Um a mais na conta. Ou a menos. Depende do ponto de vista. É mais uma batalha que foi vencida, é menos uma batalha a lutar. Um ano atrás eu não conseguiria imaginar estes números. Quatorze por um lado, quatro por outro. Da mesma forma, ainda não consigo imaginar os números ainda mais importantes. Dezoito por um lado, zero por outro. Este zero que pode ter tantos significados, zero câncer, zero tratamento, zero internações, zero ansiedade, zero sofrimento. Difícil imaginar. Difícil realizar. Uma emoção inenarrável quando acontecer.

O 14º ciclo foi muito tranquilo. Eu diria que foi o ciclo mais tranquilo até agora. Internei no dia 03/10/2010, isto mesmo, no dia das eleições, após cumprir com a minha obrigação de cidadão brasileiro (eu preferiria dizer exercer meu direito ao voto em uma sociedade democrática, mas acontece que o voto ainda é obrigatório, portanto não estou exercendo um direito e sim cumprindo as normas do Estado). Recebi 14g de methotrexate no dia seguinte, a menor dose até o momento e fui liberado na sexta-feira da mesma semana. Todos os índices acompanharam a curva correta. Os rins funcionaram bem e não senti muitos efeitos colaterais.

Enfrentei bem mais essa semana de internação. A reclusão não é muito agradável, mas já desenvolvi ferramentas para ajudar a combater a ansiedade e fazer o tempo passar um pouco mais rápido. Pontuei algumas ideias a seguir.


1- Evitar pensar no tempo
Pensar no tempo é algo que faz o tempo dilatar. O paciente normalmente fica ansioso pensando e calculando quanto tempo ainda falta para sair da reclusão. O interessante é que várias vezes me peguei contando o tempo em função de variáveis secundárias, por exemplo: "faltam três 'Jornais do Almoço' para ir embora" ou "não acredito que ainda tenho que encarar mais dois 'Vídeo Show' ainda".

2- Evitar a cama
Nas primeiras internações eu passava muito tempo na cama. Acordava e não tinha vontade de levantar. Acabava ficando praticamente o dia todo deitado. Isto é muito ruim. Temos que considerar que a partir de um certo tempo (normalmente a partir de terça-feira) já não existe mais sono, portanto mesmo que se fique deitado, não se consegue dormir. Além disso, o humor ficava horrível, a cabeça vazia pensando besteira, sentia menos vontade de comer e sentia mais dificuldades em ir aos pés. Enfim, a cama não ajuda o tempo a passar mais rápido na nossa cabeça, nos debilita fisicamente e psicologicamente. Portanto, cama só para dormir.

3- Evitar a TV nos horários que não agradam
A televisão do hospital é quatorze polegadas. A distância da cama, do sofá e da poltrona que existem no quarto até a televisão é grande. Os canais disponíveis são os da TV aberta. Não bastasse tudo isto, a imagem é ruim, cheia de sombras e toda tremida. Apesar disso, a televisão realmente ainda ajuda bastante a passar o tempo nas horas em que a programação é pelo menos razoável (poucas horas no dia). Então assisto apenas os programas que tenho vontade. Programo toda a minha rotina (almoçar, lanchar, jantar, ir ao banheiro e tomar banho) de acordo com a TV. Adiei meu horário de almoço em quase duas horas para acompanhar todos os noticiários e programas esportivos que passam entre as 12h e as 14h. Da mesma forma, tomo banho ou no horário dos filmes imbecis ou no horário da pior novela do momento. Tento segurar as idas ao banheiro durante os programas, reservando os horários de propaganda para realizar minhas necessidades fisiológicas. É claro que com a rotina "exaustiva" que tenho no hospital não é possível completar todo o espaço de programação ruim da TV. Esse tempo que sobra (é muito tempo!) reservo para o item a seguir.

4- Realizar atividades que der vontade
Levo sempre um livro e o notebook para o hospital, então dá para ocupar o tempo com estas atividades. Leio um pouco. Jogo um pouco. Navego na internet um pouco. Torno a ler. E assim segue. Outra atividade que no meu caso não se aplica devido à total ausência de dom é a música. Para quem sabe tocar algum instrumento, nada melhor do que aproveitar o tempo para tentar tirar aquela música nova ou então aquelas velhas e boas de sempre. Cheguei a comprar um violão. Tentei tocar, aprendi algumas coisas, mas falta o dom. Não tive a paciência necessária e acabei largando o instrumento. Agora ocupo meu tempo com as aptidões que não me faltam.

5- Olhar para a rua
As janelas do quarto são bem altas e enormes, mas vou várias vezes até elas para contemplar a rua. Consigo ver algumas árvores, alguns morros, o estacionamento do hospital e a avenida Ipiranga, sempre movimentada.

6- Tomar banho com bastante calma
Sei que não é ecológico, mas ficar um tempo a mais no banho faz uma diferença enorme no humor. Deixar a água quente cair um pouco sobre o corpo por vezes dolorido, ajuda muito a desestressar e relaxar. Também não posso exagerar, pois a bateria da bomba de administração de soro acaba rápido, mas vale a pena gastar uns 20 minutos embaixo da água quente.

7- Conversar com quem estiver perto
No meu caso, minha mãe, meu pai e a Denise me acompanham sempre. Sempre tem alguém comigo. Às vezes o assunto acaba, mas aí a gente repete, fala de novo das mesmas coisas, lembra de alguma coisa do passado. Assim o tempo acaba andando mais rápido. Quando o pessoal da enfermagem entra no quarto também vale a pena dar uma palavrinha.

8- Receber visitas
Acho que esta é a maneira mais eficaz de fazer o tempo passar. Receber visitas dos amigos ou familiares faz o tempo voar. Na última internação recebi várias visitas, todas me ajudaram muito a conter a ansiedade.



Hoje foi dia de consulta. O Dr. Júlio prescreveu alguns exames de sangue para verificar como estão os índices. Agora já é hora de ir dormir, porque amanhã (tecnicamente hoje, mas como eu ainda não dormi, para mim é amanhã) pela manhã eu tenho que fazer um deles.




Assistindo Resident Evil 4 - 3D

domingo, 12 de setembro de 2010

34.000/μL

Esta foi a contagem das plaquetas na última sexta-feira. Inferior em 4.000/μL com relação ao exame de quarta-feira passada. Havia bastante expectativa em torno deste resultado, pois era possível que estivesse abaixo de 20.000/μL. Caso estivesse, teria que correr ao hospital para transfundir plaquetas, algo que até o momento não foi necessário e que seria uma novidade para mim. Felizmente não foi necessário. Amanhã pela manhã vou fazer outro exame de sangue, mas acredito e espero que meu corpo já tenha conseguido reverter essa tendência de queda nos índices e já esteja em recuperação. Os leucócitos, especificamente neutrófilos, continuam com contagem insuficiente, por isso fico com a dieta restrita e impedido de sair muito de casa, em virtude dos riscos de estar com a imunidade baixa.

Hoje foi aniversário da Denise. Quero aqui dar feliz aniversário para ela que tem me acompanhado nessa luta tão difícil. Está comigo em todas as batalhas, sempre me apoiando e incentivando, nos bons e maus momentos, muitas vezes impedindo que eu caia. Não tenho como agradecer a cumplicidade, o esforço, o comprometimento, o carinho, a atenção, o amor. Tu mereces tudo que há de melhor neste mundo! Feliz aniversário, quero comemorar mais uns setenta ao teu lado! Eu te amo!


quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Recuperação do 13º Ciclo

Realizei o 13º ciclo de quimioterapia na semana passada. Começou na segunda-feira, 30 de agosto de 2010, e acabou na quarta-feira seguinte. Recebi três doses de doxorrubicina, a bendita droga vermelha. Foi a primeira vez que a utilizei desacompanhada da cisplatina - que atingiu o limite cumulativo de aplicação, ou seja, não é recomendável que eu faça uso novamente desta droga- e acompanhada do cardioprotetor.

Antes de começar estava um pouco apreensivo, pois não sabia o que esperar desse ciclo. Suspeitava que sofreria menos por ter uma droga a menos, entretanto o Dr. Julio havia me alertado que o cardioprotetor além de potencializar os efeitos da doxorrubicina é mielotóxico, portanto realmente não era possível afirmar se seria melhor ou pior que os outros. Uma coisa era quase certa: a medula sofreria um pouco mais. Ainda estou em estado de alerta quanto à contagem de plaquetas. Fiz exame de sangue hoje e o resultado foi o menor índice até agora: 38.000/μL (valores de referência: 140.000/μL a 400.000/μL). E o que isto significa? Que estou com baixo poder de coagulação sanguínea. É melhor não se cortar e evitar choques. Além das plaquetas, os leucócitos também estão com contagem baixa, mesmo que eu já tenha recebido 7 doses de filgrastima. Ainda restam 5 e até lá espero estar com índices normais.

Quanto aos efeitos colaterais sensíveis da quimioterapia, posso afirmar que até o momento foram suaves. Um leve inchaço na língua com consequente perda de paladar nos primeiros dias que sucederam a aplicação e uma sensação esquisita ao engolir. Náuseas? Não tive desta vez. Tomei remédios para evitá-las apenas dois dias e depois não senti necessidade. As dores no corpo e o cansaço se fizeram presentes por alguns dias, mas de forma bem mais amena e praticamente já inexistem.

As aplicações nesse ciclo foram muito tranquilas. Fui até a clínica preparado para enfrentar três dias inteiros de aplicação de droga e muito soro, porém, para minha absoluta felicidade, as aplicações demoraram apenas duas horas. A explicação é simples: a cisplatina, além de demandar mais de uma hora para aplicação, era mais nefrotóxica e por conseguinte exigia maior quantidade de soro (em torno de 5 litros por dia). Enquanto isso o cardioprotetor é aplicado em cerca de 45 minutos apenas. O restante do tempo fica para receber em torno de 1 litro de soro, para a doxorrubicina (cerca de 15 minutos de aplicação) e para medicações diversas (cloridrato de ranitidina e remédios para náuseas). O melhor de tudo era sair da clínica ainda pela manhã e retornar para casa para almoçar e descansar.

Já recebi os resultados da última bateria de exames de imagem. Está tudo na mais perfeita ordem. Nenhum sinal visível de neoplasia pelo corpo. Fiz também um ecocardiograma para verificar como estava o coração depois desse bombardeio de drogas. O resultado também foi muito bom e fui considerado apto a prosseguir as aplicações de doxorrubicina. Mais uma vez motivo de comemoração. Cada vitória traz mais confiança para enfrentar o que ainda falta do tratamento. Certo dia recebi a notícia de que faria 18 ciclos de quimioterapia. Não conseguia ver o fim do tratamento, parecia algo tão distante. Agora faltam 5. Dizer "só 5" é um tanto complicado, mas para quem um dia dizia "18", dizer "5" pode se dar ao luxo de anteceder a expressão pela palavra "só", mesmo sabendo que ainda existe muita peleia pela frente.

Não sei se mencionei o cardioprotetor e o ecocardiograma anteriormente, mas vai lá a explicação: a doxorrubicina é uma droga cardiotóxica e a partir de determinada dosagem acumulada no organismo, se torna importantíssimo o uso de um cardioprotetor (cloridrato de dexrazoxano, cujo nome comercial é Cardioxane) para evitar problemas maiores ao coração.

Enfim, já é hora de ir dormir porque amanhã pela manhã preciso ir até a clínica consultar o Dr. Júlio. Ele pedirá mais exames de sangue para acompanharmos a evolução das plaquetas, pois caso a contagem continue a se reduzir pode ser necessário transfundir. Vamos rezar para que no próximo exame os índices estejam melhores.

P.S.: na minha última postagem, em 08 de agosto, o Inter ainda não era bi da América. Felizmente recebi o presente de aniversário antecipado e pude estar presente ao Gigante para ver o Colorado me dar mais esta alegria. Minha imunidade estava boa, mas se não estivesse eu iria igual. Não dá para perder um momento destes. O estado de êxtase absoluto tomou conta de mim nos últimos dias. A taça voltou para a casa.


Tio Jorge e eu.

domingo, 8 de agosto de 2010

12º Ciclo Vencido

Mais um! O 12º já é passado e hoje vim atualizar o blog quanto a este ciclo agitado que se foi. A internação ocorreu no domingo passado (01/08/2010). Fiquei no quarto 917 do Hospital São Lucas da PUCRS. Recebi 15,5 gramas de methotrexate na segunda-feira, dia 02/08/2010 e já no primeiro exame de sangue tivemos uma surpresa: a dosagem da droga, que deveria ser levemente superior a 1.000 μmol/L, estava acima de 2.000 μmol/. A primeira impressão era de que meus rins não estavam filtrando como deveriam e pudemos confirmar isto nos dias que seguiram através dos níveis de creatinina (bati meu recorde - 1,45 mg/dL). A verdade é que os meus pobres rins já estão demonstrando cansaço diante do bombardeio de drogas a que estão submetidos há quase um ano. Está certo que eles nunca foram muito santos e sempre demoraram um pouco mais que o normal para expelir a droga, entretanto nos últimos dois ciclos ficou evidente que estão, de certa forma, abalados. Difícil é dizer se isto é temporário ou não. Pelo andar da carruagem deverei intensificar o acompanhamento nefrológico para que consiga cumprir todo os dezoito ciclos do protocolo.

Em decorrência desses percalços, só recebi alta ontem pela tarde. Apesar de ter ficado um dia a mais no hospital, não fiquei aborrecido. Me surpreendi com o meu próprio autocontrole... Consegui entender que não interessava o tempo necessário para receber alta, mas sim que quando eu fosse liberado eu estivesse realmente apto. Senti a mesma sensação de conformismo de quando rodei em uma cadeira na faculdade porque realmente não dominava o conteúdo e, portanto, não tinha condições de ser aprovado.

Quanto aos níveis de desidrogenase láctica, que me deixaram angustiados no fim do mês passado, o último exame de sangue que fiz em 28/07/2010 desfez a minha paranóia. O resultado foi 365 U/L, o índice mais baixo desde que comecei o tratamento. Imagino que a anormalidade apresentada tenha sido resquício do 11º ciclo de quimioterapia. Toda a tensão já está desfeita. A fosfatase alcalina também continua baixa, o que é motivo de alívio.

Nos próximos dias realizarei mais exames de sangue para acompanhar meus índices imunológicos e uma nova bateria de exames de imagem (tomografia computadorizada e cintilografia óssea). Por enquanto está mantida a dieta de "cozidos e fervidos", que nem é tão ruim assim para quem adora um bom arroz com feijão. Nos últimos dias, tenho preferido as sopas para conseguir ingerir mais líquidos. Quanto aos exames de sangue, vou abandonar um pouco o braço esquerdo por uns tempos, pois na última semana foram nove coletas no coitado. Já não tem onde furar. Agora é a vez do braço direito sofrer um pouquinho.

Para outros pacientes da oncologia:
Assisti uma breve entrevista com Isabel Allende - filha do ex-presidente chileno Salvador Allende e escritora consagrada com A Casa dos Espíritos - e ouvi uma frase que me tocou bastante. Senti respaldada a ideia de que meu blog tem um sentido muito importante para mim. Em outras palavras, ela disse que quando escreve consegue dar dimensão à dor. É realmente o que sinto. Quando nos colocamos na tarefa de redigir nossos sentimentos, acabamos por, de alguma forma, dimensioná-los. Isto talvez até não seja tão bom para sentimentos agradáveis, mas para a dor pode ser interessante, pois conseguimos reconstruir a nossa visão dos fatos a partir de novas perspectivas. Somos forçados a imaginar sofrimentos semelhantes ou então situações que representem - de forma caricata ou não - essa nossa dor. Decidimos compará-la com o crepúsculo de um dia cinzento ou com uma tempestade em alto mar. Com o frio cortante de um indigente ou com a agonia de um torturado. Acredito que escrever, se feito com prazer, pode ser uma boa terapia, uma maneira excelente de manter mente sã em um corpo que também queremos são.

Por fim, gostaria de desejar a todos os pais que acompanham o blog um feliz dia dos pais. Obviamente, desejo isto em especial ao meu pai, que considero o melhor pai do mundo. Nunca conseguirei agradecer toda a dedicação e amor que ele tem por mim. É meu exemplo de princípios e valores. A base forte de meu caráter e da minha personalidade. É o que eu quero ser quando crescer, é o meu maior ídolo. Pai, obrigado por tudo!




Só para esclarecer: eu tenho a impressão de que ele é colorado mesmo.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

11º Ciclo Vencido

Voltei. Peço desculpas por não avisar, mas tirei férias do blog neste último mês. Ocorre que foram as últimas semanas antes que a Denise assumisse o novo emprego, portanto decidimos aproveitá-las bem e praticamente não sobrou tempo para escrever. Agora tenho bastante novidades e inspiração.

O 11º ciclo já foi vencido. Fui internado no dia 04/07/2010 no Hospital da PUCRS e recebi 14,5 gramas de methotrexate no dia seguinte. Apesar de ter sido a menor quantidade em um único ciclo até o momento, para nossa surpresa foi a pior taxa de redução da dosagem da droga no sangue, ou seja, o meu organismo demorou mais para filtrar e expelir a medicação através da urina. Para entender melhor: para cada 24 horas que se passam, existem determinados valores de referência para a concentração de methotrexate no sangue. A seguir a tabela.




Pela primeira vez, não consegui atingir os valores de referência nas horas 24 e 48. Em decorrência disso tive que permanecer internado até a noite de sexta-feira quando atingi um nível satisfatório e seguro para deixar o hospital e retornar para casa. Agora já estou até com a dieta liberada!

Como de costume, na semana seguinte fiz alguns exames de sangue para verificar uma série de indicadores. Infelizmente a LDH (desidrogenase láctica) apresentou um valor elevado (675 U/L) em relação ao valor de referência (618 U/L). Como já disse anteriormente, a desidrogenase láctica é considerada um marcador tumoral inespecífico, porém pode ser indicativo de vários outros problemas como anemia megaloblástica, infarto do miocárdio, infarto pulmonar, mononucleose infecciosa, distrofia muscular progressiva, algumas doenças renais, lesões internas em geral. Confesso que fiquei muito chateado e com medo de estar desenvolvendo metástases ao ver o resultado deste exame de sangue, porém conversei com o Dr. Júlio e já consegui controlar a ansiedade. É difícil imaginar a hipótese de ter o tratamento aumentado ou modificado, me causa uma insegurança enorme. Fiquei meio sem saber o que pensar por alguns dias. Semana que vem realizarei outro exame para verificar se o valor continua elevado. De qualquer forma, em breve será hora de novamente fazer os exames de imagem e aí será possível esclarecer qualquer dúvida.

Por hoje são estas as novidades. Sei que o pessoal está aguardando a postagem que prometi sobre o chá verde e prometo que ela não ultrapassará a semana que vem. Obrigado a todos pelo carinho e pela atenção.