segunda-feira, 8 de novembro de 2010

O Sol Voltou a Brilhar

O sol voltou a brilhar. Não falo apenas literalmente, o que seria justo em virtude da bela semana ensolarada que tivemos neste início de novembro. Ocorre que um novo tempo começou na minha vida. Um tempo de esperanças e desejos renovados. Mas o que seria capaz de desencadear isto? O que aconteceu de tão diferente? Nada.

No último ano (um pouco mais de um ano, é verdade) venci 15 ciclos de quimioterapia. Quinze. Durante a semana passada, mais precisamente entre domingo e sexta-feira, estive internado pela 11ª vez no Hospital da PUCRS. Décima primeira. Algo de diferente? Não.

É fato que a quimioterapia já se tornou algo corriqueiro na minha vida. Ainda assim, não consigo me acostumar a essa rotina. Principalmente esse dia-a-dia de hospital, esse estado de dependência em relação às pessoas que mais estimo, essa falta de liberdade, essa espécie de coleira que carrego no peito que me liga aos mais diversos medicamentos e, por conseguinte e paradoxalmente, me resgatará a uma vida normal. É como estar preso sem ter cometido qualquer crime.

Tantas vezes já tive vontade de arrancar os fios e me libertar dessa legítima tortura, mas, para minha fortuna, a sensatez acaba falando mais alto e passo a conviver com a ansiedade e com o marasmo com naturalidade. Isso não significa que eles inexistam, aliás, bem no sentido inverso, são bem concretos e visíveis no meu íntimo. Permaneço abraçado a eles pelo tempo necessário para que meu corpo se livre da droga que o salva.

O que resta de uma semana como essa são os novos horizontes que consigo enxergar. A cada ciclo é assim. Novas janelas se abrem. Novos caminhos se formam. Uma nova consciência se impõe. É impossível se manter inalterado. Aos meus renovados olhos, o Sol volta a brilhar após uma semana inteira de eclipse.

Resumindo toda essa conversa, a semana que se passou foi, como sempre, cansativa e extensa (a sensação é que um dia é mais longo que uma semana). Praticamente não tive náuseas, urinei bastante e os rins estiveram em perfeito funcionamento, tive dores pelo corpo em um nível normal, a língua apresentou um pouco de inchaço, o paladar esteve alterado e o apetite não foi internado comigo, ao menos não o vi por todo o tempo em que estive no hospital. Ainda prefiro todos estes efeitos ao tédio e à ansiedade. Por incrível que pareça, mesmo o tratamento sendo considerado agressivo e até mesmo violento ao corpo humano, os efeitos psicológicos experimentados são potencialmente mais danosos que os efeitos físicos. Outros pacientes podem ter opiniões distintas, mas até o momento no meu caso, esta é a verdade.

Agora terei um mês de folga pela frente. O próximo ciclo será no início de dezembro e até lá realizarei uma nova bateria de exames de imagem (tomografias de tórax, abdômen e membro inferior esquerdo e cintilografia óssea) para aferir o estado de meu organismo em relação ao câncer. Vamos torcer para que continue livre de qualquer manifestação da doença. Além disso, serei novamente submetido a um ecocardiograma, pois o próximo ciclo será a última aplicação de doxorrubicina (a droga vermelha). Depois disso serão mais duas internações e estarei pronto a remontar as coisas em seus devidos lugares.

Frase do dia: "A mente que se abre a uma nova idéia jamais voltará ao seu tamanho original." - Albert Einstein.


7 comentários:

Luiz Mauricio Finkler disse...

Oi Vitão.
Li a Tua última postagem e Andei dando uma expiada na Tua lista de blogs. Não sei oque nem como comentar neste momento. Só me resta agradecer pela aula e vibrar junto contigo cada etapa vencida.
Continuamos orando.
Um abração. Tio Maurício e família.

Edson Leite disse...

Oi Vitor, primeiramente quero agradecer por você ter se incluído no meu rol de seguidores. Não fosse as circunstâncias que nos levaram a criar este blog diria mesmo que é motivo de alegria ver que alguém se interessa por aquilo que estamos escrevendo.
Bom meu amigo, parabéns por poder vislumbrar o despertar de nova vida, de ver o sol brilhar novamente em todos os aspectos que isso representa na nossa vida.
Ninguém repete as mesmas reações, não só diferem devido ao estado de cada organismo, como também depende diretamente da nossa força de querer continuar perseguindo a vitória nessa luta cruel. Você vai vencer, Vitor, nós vamos, literalmente, sair vitoriosos. Aproveite o recesso e que os seus exames mostrem um corpo sadio e lire dessa bicharada medonha. Abraços,

Sabrina disse...

Vitor, olá!
Obrigada pela visita ao meu blog! Já estou te seguindo também e vou surfar pelas páginas e palavrinhas do teu espaço...
Vamos sempre aprendendo! Cada dia um pouquinho e sempre andando em frente!!
O importante é mantermos o coração cheio de amor e a mente repleta de positividade!
Abração,
Sa

Tiago Finkler disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Tiago Finkler disse...

E ai Vitor!
Gostei muito desse post.
Abracao pra ti primo.

Karen disse...

Que alegria ler que estás com "a bateria recarregada", vendo o sol brilhar de novo. É bom saber que está chegando ao fim os dias tortuosos do tratamento.. lá se foram quinze!! Só quem passa por isso sabe a real dimensão de passar por quinze ciclos de quimioterapia. Mas "os fins justificam os meios" não é? Mais um pouquinho e isso terminará, daí não haverá mais fios e nem cabos para te prender, e estarás livre para voltar à vida normal!

Beijos, tua mana.

P.S.: TU és o nosso sol, e estás brilhando como sempre.

Vítor disse...

Fiquei impressionado como vc conseguiu descrever exatamente o que eu sentia, em relação a dependencia, em se sentir preso e impotente em relação a varias coisas, que antigamente vc julgaria banais, mas hj tem extrema importancia, na sua, na minha e na vida de quem mais passou por isso.
Ainda não posso te falar quando isso passa, mas aos poucos sei que vai passando. Apesar de estar considerado curado, ainda tenho efeitos da quimio e não só fisicamente. Assim como vc, os efeitos psicologicos foram bem piores que os fisicos apesar das nauseas e dores no corpo. Mas sei que isso um dia passa, estar enclausurado nesses sentimentos não é nada agradavel, mas acredito q a liberdade depois disso tudo, a sensação de bem estar vai ser inigualavel.
Muita força e fé meu brother!
Abcs, Vitor.