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domingo, 9 de maio de 2010

Fôlego Renovado

Terminado o 9º ciclo de quimioterapia já é hora de voltar a escrever. Sei que estou em dívida com todos que me acompanham aqui pelo blog e nesta postagem pretendo esclarecer os motivos de minha ausência enquanto narrador desta novela.

Todos sabem ou imaginam que atravessar esse tratamento, que apelidei de vale sombrio, não deve ser fácil. Realmente, não imaginava facilidades quando ele começou. Previ todo tipo de dificuldade, principalmente física, imaginava estar imune à corrosão psicológica que era apenas uma possibilidade para um ser tão racional, realista, sensato e auto-suficiente como eu imaginava ser. Mas até mesmo uma rocha pode ceder. Com pessoas isto seja, talvez, mais líquido e certo do que alguns efeitos colaterais da quimioterapia. Ainda em meio ao 8º ciclo me deparei com uma situação que nunca imaginaria: estava eu no hall da depressão, já estava atravessando a porta, prestes a me entregar em um vazio que talvez me tragasse para as profundezas do vale sombrio e lá me aprisionasse, na escuridão, no frio, aguardando o pior.

Acho que na nossa vida, muito pouca coisa acontece por acaso. Pessoas cruzam nosso caminho em momentos bons e não imaginamos que um dia elas podem nos tirar do abismo. "Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas.", profetizou Antoine de Saint Exupéry em sua fábula O Pequeno Príncipe. Ele estava certo. E como estava! Tive motivação suficiente para voltar, abandonar o escuro, fechar a porta, me sentar ao sol, à luz da minha motivação. Aprendi que, assim como a minha doença, meu tratamento é coletivo, não sou afetado sozinho, todos ao meu redor podem sentir, podem contribuir, podem me ajudar e é por estas pessoas, minha família e meus amigos, que preciso seguir em frente, vencer, dar a volta por cima neste embaraço da vida. Não é feio precisar de ajuda, mas sempre achei que isto não fosse para mim. Tolice a minha acreditar que a vida não me faria mudar de ideia. Hoje sei que sem as pessoas que me importam não sou nada, não tenho razão de viver, não irei a lugar algum. Eu nem mesmo precisaria estar escrevendo estas palavras. Muitas vezes penso que morrer pode ser mais fácil do que viver. A questão é que ainda existem motivos para viver. Para morrer não.

Os últimos dias foram dias de reflexão na minha vida. Dias de reciclagem de conceitos, de pesos e importâncias. Não me senti disposto a escrever em meio a este turbilhão emocional. Para ser sincero, estava sem a menor inspiração, não saberia por onde começar, não teria nada digno a dizer. Procurei esquecer um pouco da doença e do tratamento e me dedicar um pouco mais a aproveitar meus dias com pensamentos mais leves. Acredito que já esteja recuperado, me sinto confortável em escrever e já não estou em pânico quanto às incertezas do futuro.

Quanto ao 9º ciclo, foi tranquilo, como todas as outras aplicações de methotrexate. Fui liberado na sexta-feira de tarde para retornar para casa. Sofri apenas os efeitos colaterais de sempre, boca inchada, dores no corpo e um pouco de lentidão no raciocínio. Tudo bem leve. Não tenho do que me queixar.

A novidade é uma avaliação nefrológica que iniciei. Tanto a cisplatina quanto o methotrexate são drogas consideradas nefrotóxicas. A cisplatina tem um potencial de toxicidade bem significativo, causando algumas lesões irreversíveis que se substanciam em perda de função renal. A última DCE (depuração da creatinina endógena, exame de sangue e de urina indicativo da função renal) revelou um pequeno déficit. Os meus níveis de creatinina no sangue também estão num patamar onde a perda de função já é provável. A creatinina é produzida através da atividade muscular e esta produção é praticamente constante no organismo. Ela aumenta sua concentração no sangue a medida que reduz a taxa de filtração renal. Fiz um exame de urina e nos próximos dias farei uma ecografia para avaliar melhor. Já recebi três doses de cisplatina e só tenho mais uma a receber. Conforme avaliação preliminar do nefrologista, é bem provável que esta questão não interfira no tratamento e eu possa fazer o 10º ciclo normalmente.

Ao realizar o balanço de costume após o término de mais um ciclo, agora posso ver que já venci metade do tratamento quimioterápico. Nove ciclos se foram, nove ainda estão por vir. Ainda me sinto cheio de disposição para enfrentar o tratamento. Estas últimas semanas serviram para retomar o fôlego. Agora posso seguir o caminho que comecei a trilhar oito meses atrás rumo à vitória. Estou pronto, preparado, firme e forte. Não é assim tão fácil para me derrubar do cavalo!


P.S. 1: quero deixar aqui um agradecimento especial ao Cristiano, que trabalha na psicologia da Clinionco. Ele foi decisivo nesta retomada, me encorajou a refletir e a buscar o melhor para o enfrentamento da situação. Estive munido das melhores armas para o combate. Muito de minha paz espiritual devo a ele. Obrigado!

P.S. 2: hoje é Dia das Mães e parabenizo a todas as mães que estão lendo esta postagem. Em especial desejo um feliz Dia das Mães a minha mãe, que tem sido incrível comigo nestes momentos que mais preciso dela, tem demonstrado uma força enorme e uma dedicação incondicional. Não sei o que seria de mim sem ti. Mãe, eu te amo!

sexta-feira, 26 de março de 2010

Recuperação do 7º Ciclo

O 7º ciclo passou e já me sinto bem melhor. Desta vez tive muito pouca náusea, acho que os remédios deram conta do pouco que eu iria sentir. O inchaço que acumulava no terceiro dia de medicação sumiu dois dias depois. O que sumiu também foi o paladar. Sumiu e ainda não encontrei novamente. Além disso, estou com a boca um pouco sensível ainda. Um dia senti algumas dores no ouvido. Depois, começaram alguns zumbidos que me deixaram apreensivos.

Psicologicamente, acho que este ciclo foi o pior. Ainda não entendi o porquê. Esperei por vários dias os efeitos colaterais, mas eles vieram de forma amena. Ao mesmo tempo, minha cabeça parecia meio perdida, pensamentos vagos, uma certa desorganização mental. Estive deprimido até o domingo, quando comecei a melhorar. Sempre tento me manter firme, forte, evito que minhas fragilidades transpareçam, mas neste último ciclo acho que não consegui. Tive muitos pensamentos ruins. Em alguns momentos achei que estava a um passo da loucura. Nunca entenderei como funciona a vida, não adianta tentar. Apesar de ter consciência disso, em alguns momentos começo a refletir sobre o assunto, criar suposições, tentativas mais do que frustradas de entender os motivos e mecanismos da existência. Afinal, penso, logo existo. Não é assim? Se for... Bem, se for... Desisto!

Esta semana começou bem melhor. Olho o calendário e vejo que ainda tenho alguns longos dias até o próximo ciclo e isto me deixa feliz. Estou tentando não pensar muito adiante na linha do tempo, pois as vezes é meio brochante lembrar que o caminho é tão longo. Retomei as fisioterapias e continuo evidenciando progressos. Na terça-feira fui ao Dr. André, que está satisfeito com a evolução e recomendou que eu começasse a fazer movimentos resistidos. Ele analisou os exames de imagem que tinham me deixado duvidoso algumas semanas atrás e corroborou que está tudo bem. Na quarta-feira fui ao Dr. Júlio. Contei sobre os probleminhas auditivos e ele solicitou a avaliação de um otorrinolaringologista. É importante verificar se existe alguma perda na audição, pois a cisplatina pode causar surdez e ainda, segundo o protocolo, preciso receber mais uma dose no 10º ciclo. Hoje fui ao especialista que solicitou uma audiometria. Farei a audiometria na próxima quarta-feira e então não teremos mais dúvidas.

Amanhã começam os exames de sangue para verificar como estão minhas plaquetas e meus leucócitos. Espera-se que estejam em queda vertiginosa. Estou recebendo desde quinta-feira passada, diariamente, injeções de filgrastima (granulokine) para me recuperar da neutropenia. Normalmente, estou com níveis aceitáveis de imunidade na 12ª dose do medicamento, que deve ocorrer na próxima segunda-feira.

Enfim, mais um ciclo se foi. Ainda estou enjaulado em casa, mas em alguns dias poderei me aventurar pelas ruas novamente. Cada dia que se passa é um dia a menos de tratamento. O fim está se aproximando. Do mundo? Não, do mundo espero que não.


P.S.: Hoje é aniversário de Porto Alegre e da minha sobrinha do coração Lara. Parabéns a essa cidade maravilhosa e a esta menina linda.




sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Fim do 6º Ciclo

E lá se foi mais um ciclo de quimioterpia. Recebi alta hoje de tarde e já estou em casa. Este ciclo foi bem tranquilo, praticamente não senti os efeitos comuns, apenas falta de apetite e um pouco de inchaço e sensibilidade na boca.

Toda vez que retorno para casa tenho a sensação de estar retornando ao mundo. Parece que enquanto estou no hospital estou atravessando um caminho sombrio e desconhecido, que me causa as mais estranhas sensações: medo, angústia, incerteza, raiva, enfim, muitos pensamentos ruins retornam nestas horas. São recaídas inevitáveis diante de um momento de fragilidade física e emocional.

Agora estou eu em casa, retomando o fôlego e aproveitando um pouquinho mais da vida enquanto não chega o 7º ciclo. Semana que vem terei consulta ao oncologista, exames de sangue e será tempo de refazer os exames de rotina para atestar a inexistência de metástases. Em meio a tudo isto a vida segue seu curso natural, todos envelhecendo a cada dia. Não deixemos para amanhã o que podemos fazer hoje.